Branding Estratégico: O que a movimentação da 99Food me fez pensar sobre marcas?
- In9br &Co.
- 3 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de fev.

Essa semana, revisitando o movimento recente da 99Food frente ao iFood, me peguei pensando que essa história tem menos a ver com delivery de comida e mais a ver com quem controla a narrativa de um mercado.
Porque, convenhamos: se a disputa fosse só operacional, essa conversa poderia ser diferente afinal, o iFood Ć© enorme, eficiente, dominante e virou hĆ”bito, e mesmo com forte investimento da Chinesa DiDi, para milhƵes de pessoas, pedir comida é abrir o iFood, nĆ£o porque ele seja perfeito, mas porque ele ocupa o lugar mental de āpadrĆ£oā.
Algo parecido com o que aconteceu com marcas como Leite Moça, Bombril, Havaianas ou Maizena, quando a marca deixa de ser apenas um nome e passa a ser sinÓnimo da própria categoria. Quando isso acontece, a linguagem entrega o hÔbito
. VocĆŖ nĆ£o diz ābora pedir comida hoje?ā. VocĆŖ diz: ābora pedir iFood hoje?ā.
E quando uma marca vira padrão, ela deixa de disputar atenção. Ela passa a disputar continuidade.
à exatamente aà que a história da 99Food fica interessante.
NĆ£o Ć© sobre ganhar do lĆder, Ć© sobre mudar a conversa
Existe um erro clĆ”ssico quando marcas tentam enfrentar lĆderes: tentar provar que sĆ£o āmelhoresā nos mesmos atributos. Mais rĆ”pido, mais barato, mais completo. Isso quase nunca funciona, porque o lĆder jĆ” ganhou o direito de ser comparado consigo mesmo.
A 99Food, ao meu ver, fez algo mais sofisticado: ela mudou o eixo da conversa.
Em vez de perguntar:
āQuem entrega melhor?ā
Ela passou a provocar:
āEsse jogo estĆ” justo para todo mundo?ā
Essa pergunta Ć© poderosa porque desloca o debate do campo da eficiĆŖncia para o campo do significado. E significado Ć© onde marcas realmente competem.
Quando preço deixa de ser promoção e vira posicionamento
Muita gente leu o movimento de taxa zero da 99Food como uma estratĆ©gia agressiva de aquisição. Mas isso Ć© olhar só a superfĆcie.
Preço, nesse caso, não estÔ sendo usado como incentivo tÔtico. EstÔ sendo usado como declaração ideológica.
Na prƔtica, a marca estƔ dizendo:
āDelivery nĆ£o precisa ser um jogo extrativo.ā
āO restaurante nĆ£o precisa trabalhar para pagar a plataforma.ā
āExiste outro modelo possĆvel.ā
Isso nĆ£o Ć© só uma polĆtica comercial. Ć uma narrativa de mercado.
à a graça é que essa narrativa não precisa ser gritante. Ela se espalha no boca a boca dos restaurantes, nos bastidores, nas conversas de quem sente o peso da operação todos os dias. à ali que a percepção começa a mudar e ganhar cada vez mais espaço.
O lĆder domina o hĆ”bito.
O desafiante tenta dominar o discurso.
O iFood domina o hƔbito. Isso Ʃ fato. Ele Ʃ rƔpido, eficiente e culturalmente presente. Mas toda lideranƧa muito consolidada carrega um efeito colateral pois passa a ser vista como inevitƔvel.
E āinevitĆ”velā Ć© um terreno perigoso para marcas, porque abre espaƧo para a pergunta silenciosa:
āE se tivesse outro jeito?ā
A 99Food parece ter entendido isso. Ela nĆ£o tenta ser a protagonista da cultura pop, nem disputar carisma. Ela se posiciona como alternativa estrutural. Como quem diz:āVocĆŖ nĆ£o precisa trocar tudo. Só precisa ter escolha.ā
Esse tipo de posicionamento nĆ£o cresce explosivamente, cresce de forma cumulativa. Vai ganhando adesĆ£o onde o lĆder gera atrito, nĆ£o onde ele brilha.
No fim, não é sobre delivery. à sobre poder simbólico.
O que mais me chama atenção nesse movimento não é o market share em si, mas o que ele revela sobre como mercados funcionam.
Marcas dominantes não dominam apenas pela escala. Elas dominam porque:
Definem as regras
Estabelecem o vocabulƔrio
Determinam o que Ć© ānormalā
Quando alguĆ©m entra e questiona isso, mesmo sem ser lĆder, ela jĆ” estĆ” jogando um jogo maior: o jogo da narrativa.
E mercados não mudam quando surge um player maior. Eles mudam quando surge uma história melhor explicada.
Talvez a 99Food nĆ£o precise āvencerā o iFood para cumprir seu papel. Talvez o papel dela seja outro: mostrar que o mercado pode ser pensado de uma forma diferente.
E, quando isso acontece, não é só share que muda.
Muda a conversa.
Muda o critƩrio.
Muda o futuro.
E caso você esteja se perguntando, sim, isso é branding, e do tipo mais estratégico, o "mais puro creme do milho verde". (entendedores, entenderam).
Quando muita gente fala em branding, muito gente ainda pensa em:
logo
tom de voz
campanha
ācomo a marca se comunicaā
Posts lindos nas redes sociais
participar de TODAS as trends para viralizar... (Aqui não quero nem me aprofundar =/)
Isso é expressão de marca. Importante, mas é a ponta do iceberg.
Branding, no fim, Ć© sobre definir significado. Ć sobre responder trĆŖs perguntas invisĆveis:
Qual jogo estamos jogando?
Quais regras aceitamos e quais queremos mudar?
Que papel simbólico queremos ocupar nesse mercado?
A 99Food nĆ£o estĆ” só escolhendo uma polĆtica de preƧo. Ela estĆ” escolhendo quem ela Ć© na história do mercado.
Muito parecido com a Nubank no comeƧo.
Isso Ć© branding quando:
o preƧo vira posicionamento
o modelo de negócio vira narrativa
o produto vira argumento
e o concorrente vira pano de fundo, não referência
A diferenƧa sutil (e importante) quando olhamos para marketing de maneira ampla.
Growth perguntaria:
āIsso traz usuĆ”rios?ā
Branding pergunta:
āQue tipo de mercado eu ajudo a construir se isso der certo?ā
Perceba que aqui nĆ£o falamos em CAC, funil, conversĆ£o, trafego, ROI, engajamento, views e sim de poder simbólico, domĆnio de narrativa, formação de hĆ”bito e legitimidade.
Isso é estratégia de marca, não comunicação, vendas, e qualquer outra coisa.
Muitas dessas ideias não nascem prontas. Elas surgem de conversas, projetos reais e tensões de mercado que não cabem em um post ou artigo.
Se você quiser se aprofundar em como esse tipo de estratégia de branding impacta decisões reais de negócio, preencha aqui o formulÔrio, é um bom ponto de partida.
Referências bibliogrÔficas sobre branding estratégico:
Klavi ā Delivery no Brasil: market share e concentração do mercadohttps://klavi.ai/blog/delivery-mercado-market-share-aplicativo-entrega
Exame ā iFood encerra 2024 com 380 mil restaurantes parceiros e 55 milhƵes de clienteshttps://exame.com/tecnologia/ifood-encerra-2024-com-380-mil-estabelecimentos-parceiros
IstoĆ Dinheiro ā 99 anuncia taxa zero para restaurantes para disputar mercado com iFoodhttps://istoedinheiro.com.br/99-ifood-isencao-de-taxas
Abrasel ā 99Food retorna a SP com promessa de taxa zero e novo modelo para restauranteshttps://abrasel.com.br/noticias/entrevistas/99food-retorna-a-sp-com-investimento-de-r-500-milhoes-e-promessa-de-taxa-zero-para-restaurantes
Ehrenberg-Bass Institute ā How Brands GrowĀ (Byron Sharp)
Keller, K. L. ā Strategic Brand Management
